Alguém cantando longe daqui Alguém cantando ao longe, longe Alguém cantando muito Alguém cantando bem Alguém cantando é bom de se ouvir Alguém cantando alguma canção A voz de alguém nessa imensidão A voz de alguém que canta A voz de um certo alguém Que canta como quer pra ninguém A voz, de alguém quando vem do coração De quem mantém toda pureza Da natureza Onde não ha pecado nem perdão (Caetano Veloso)
"Agora que não estás, deixa que rompa o meu peito em soluços Te enrustiste em minha vida, e cada hora que passa É mais por que te amar"
(V. de Moraes) *** *** Já sei que já não sou, passei, passou. A lua nos espera nessa rua é só tentar. E um coro de astronautas, de anjos e crianças bailando ao meu redor, te chama: vem voar. Já sei que já não sou, passei, passou. Eu venho das calçadas que o tempo não guardou. E vendo-te tão triste, te pergunto: O que te falta? ...talvez chegar ao sol, pois eu te levarei. (Astor Piazzola - versão Rogério Cardoso)
***** Era por fim a vida real, com o meu coração a salvo, e condenado a morrer de bom amor na agonia feliz de qualquer dia depois dos meus cem anos." (Gabriel Garcia Marques, in Memória de Minhas Putas Tristes)
Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para
tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer;
a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão
do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.
Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. (...) relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações?
Hoje, 20/10, é dia do poeta e aniversário de Arthur Rimbaud, Poeta francês . Considerado pós-romântico e precursor do surrealismo, é uma das maiores influências da poesia moderna. Jean Nicolas Arthur Rimbaud nasceu em Charleville, em 20/10/1854 e morreu em Marselha, em 10/11/18991. Teve um vida muito agitada. Comercializou peles e café na Etiópia, alistou-se no Exército colonial holandês, para desertar logo depois, traficou armas em Ogaden, foi para o Chipre e para Alexandria. Em 1891 tem a perna amputada, em decorrência de um câncer no joelho. Morreu em Marselha, depois de demorada agonia. Aos 18 anos vive uma turbulenta história de amor com o poeta Verlaine, que deixa a família para viver com Rimbaud em Londres. A tempestuosa relação amorosa entre os dois terminou quando Verlaine atirou em Rimbaud, ferindo-o no pulso.
No céu da poesia, o nome de Arthur Rimbaud
brilha para sempre como uma estrela de primeira grandeza.
PRIMEIRA TARDE
Tradução: Ivo Barroso
Era bem leve a roupa dela E um grande ramo muito esperto Lançava as folhas na janela Maldosamente, perto, perto.
Quase desnuda, na cadeira, Cruzavas as mãos, e os pequeninos Pés esfregava na madeira Do chão, libertos finos, finos.
— Eu via pálido, indeciso, Um raiozinho em seu gazeio Borboletear em seu sorriso — Mosca na rosa — e no seu seio.
— Beijei-lhe então os tornozelos. Deu ela um riso inatural Que se esfolhou em ritornelos, Um belo riso de cristal.
Depressa, os pés na camisola Logo escondeu: "Queres parar!" Primeira audácia que se implora E o riso finge castigar!
Sinto-lhe os olhos palpitantes Sob os meus lábios. Sem demora, Num de seus gestos petulantes, Volta a cabeça: "Ora, esta agora!..."
"Escuta aqui que vou dizer-te..." Mas eu lhe aplico junto ao seio Um beijo enorme, que a diverte Fazendo-a rir agora em cheio...
— Era bem leve a roupa dela E um grande ramo muito esperto Lançava as folhas na janela Maldosamente, perto, perto.
PREMIÈRE SOIRÉE
Elle était fort déshabillée Et de grands arbres indiscrets Aux vitres jetaient leur feuillée Malinement, tout près, tout près.
Assise sur ma grande chaise, Mi-nue, elle joignait les mains. Sur le plancher frissonnaient d'aise Ses petits pieds si fins, si fins.
— Je regardai, couleur de cire, Un petit rayon buissonnier Papillonner dans son sourire Et sur son sein, — mouche ou rosier.
— Je baisai ses fines chevilles. Elle eut un doux rire brutal Qui s'égrenait en claires trilles, Un joli rire de cristal.
Les petits pieds sous la chemise Se sauvèrent : "Veux-tu en finir!" — La première audace permise, Le rire feignait de punir!
— Pauvrets palpitants sous ma lèvre, Je baisai doucement ses yeux: — Elle jeta sa tête mièvre En arrière: "Oh! c'est encor mieux!...
Monsieur, j'ai deux mots à te dire..." — Je lui jetai le reste au sein Dans un baiser, qui la fit rire D'un bon rire qui voulait bien...
— Elle était fort déshabillée Et de grands arbres indiscrets Aux vitres jetaient leur feuillée Malinement, tout près, tout près.
A ETERNIDADE
Tradução: Augusto de Campos
De novo me invade. Quem? – A Eternidade. É o mar que se vai Como o sol que cai.
Alma sentinela, Ensina-me o jogo Da noite que gela E do dia em fogo.
Das lides humanas, Das palmas e vaias, Já te desenganas E no ar te espraias.
De outra nenhuma, Brasas de cetim, O Dever se esfuma Sem dizer: enfim.
Lá não há esperança E não há futuro. Ciência e paciência, Suplício seguro.
De novo me invade. Quem? – A Eternidade. É o mar que se vai Com o sol que cai.
L'ETERNITÉ
Elle est retrouvée. Quoi? – L'Eternité. C'est la mer allée Avec le soleil.
Âme sentinelle, Murmurons l'aveu De la nuit si nulle Et du jour en feu.
Des humains suffrages, Des communs élans Là tu te dégages Et voles selon.
Puisque de vous seules, Braises de satin, Le Devoir s'exhale Sans qu'on dise: enfin.
Là pas d'espérance, Nul orietur. Science avec patience, Le supplice est sûr.
Elle est retrouvée. Quoi? – L'Eternité. C'est la mer allée Avec le soleil.
("Primeira Tarde" In O Torso e o Gato Editora Record, Rio de Janeiro, 1991. "A Eternidade" In Rimbaud Livre Editora Perspectiva, 2a. ed, São Paulo, 1993)
Orfeu da Conceição, que foié uma adaptação, da história de Orfeu e Euridice, da mitologia grega transposta para realidade das favelas cariocas. O espetáculo estreiou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 25 de setembro de 1956. A Peça teve cenários de Oscar Niemeyer
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Monólogo de Orfeu
Composição: Vinicius de Moraes/ Antonio Carlos Jobim
Mulher mais adorada! Agora que não estás, deixa que rompa o meu peito em soluços Te enrustiste em minha vida, e cada hora que passa É mais por que te amar a hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada.
E sabes de uma coisa? Cada vez que o sofrimento vem, essa vontade de estar perto, se longe ou estar mais perto se perto Que é que eu sei? Este sentir-se fraco, o peito extravasado o mel correndo, essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu; Tudo isso que é bem capaz de confundir o espírito de um homem.
Nada disso tem importância Quando tu chegas com essa charla antiga, esse contentamento, esse corpo E me dizes essas coisas que me dão essa força, esse orgulho de rei.
Ah, minha Eurídice Meu verso, meu silêncio, minha música. Nunca fujas de mim. Sem ti, sou nada. Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível! A existência sem ti é como olhar para um relógio Só com o ponteiro dos minutos. Tu és a hora, és o que dá sentido E direção ao tempo, minha amiga mais querida!
Qual mãe, qual pai, qual nada! A beleza da vida és tu, amada Milhões amada! Ah! Criatura! Quem poderia pensar que Orfeu,
Orfeu cujo violão é a vida da cidade E cuja fala, como o vento à flor Despetala as mulheres - que ele, Orfeu, Ficasse assim rendido aos teus encantos?
Mulata, pele escura, dente branco Vai teu caminho que eu vou te seguindo no pensamento e aqui me deixo rente quando voltares, pela lua cheia Para os braços sem fim do teu amigo
Vai tua vida, pássaro contente Vai tua vida que estarei contigo.
Navegas en mi, Deseos locos, Que nos alimentan a los pocos, Al años al hilo. en las aguas profundas, oscuras de nuestro celo Te ahogas y me inundas En cuanto te halago y nos perdemos en el lago Profundo de nuestro placer.
(Trad. Elizabeth-Betty)
SONHOS NA NOITE. Tereza da Praia
Navegas em mim, Desejos loucos, Que nos alimentam aos poucos, A anos a fio. Nas águas fundas, Escuras de nosso cio Te afogas e me inundas Enquanto te afago E nos perdemos no lago Profundo do nosso prazer.